Continuando as discussões do post anterior, pretendemos utilizar a teoria ergodica de fluxos homogeneos (em particular os teoremas de Ratner) para entender os valores da função ao longo dos latti- ces
(na notação do post anterior). O resultado de teoria er- godica a ser invocado diz que a familia
de circu- los de lattices fica equidistribuida no espaço de lattices
quando
:
Teorema 1. Para toda
temos
quando
.
Por enquanto, assumiremos este teorema e veremos como deter- minar a distribuição assintotica de
.
-Calculo de assumindo o teorema 1-
Relembre que o ultimo resultado provado no post anterior foi a proposição 1 segundo a qual o tamanho do conjunto de tais que
é
. Juntando este fato com o teorema 1 acima, temos a seguinte consequência:
Proposição 1. Para
temos
quando
.
Prova. Considere . Com essa notação, o fato do tamanho do conjunto dos
com
verificar
pode ser reescrito como:
Isso reduz nossa tarefa a mostrar que converge para
. Para isso, a idéia natural seria aplicar o teorema 1. Entretanto uma utilização direta desse teorema não é possivel porque a função caracteristica
não é continua. Um remédio simples para esse contra-tempo é aproximar (em
)
e
por funções continuas em
e aplicar o teorema 1. Com isso, a unica coisa que nos resta fazer é ver que tais aproximações exis- tem. Conforme sabemos dos cursos de analise, as funções
e
podem ser aproximadas por funções em
sempre que
.
Resumindo, a prova da proposição terminara quando mostrarmos que . Nesse sentido, começamos por convidar o leitor a verificar que
é uma submersão para quase todos os pontos de
: mais precisamente,
deixa de ser submersão apenas nos lattices
contendo a origem
ou um ponto do lado horizontal
do seu triângulo maximal
. Em particular, para cada
, os pontos de
nos quais
deixa de ser submersão formam um fechado de
-medida zero. Logo, pelo teorema (de forma local) das submersões vemos que os conjuntos de nivel de
possuem
-medida zero e, a fortiori, segue que
, como afirmamos. Isto termina a prova.
Um corolario direto dessa proposição (e dos resultados obtidos no post anterior) é:
Proposição 2. Suponha que a distribuição assintotica
de
é continua. Então,
para
. Mais ainda, esta convergência é uniforme em
.
Prova. Supondo continua, podemos combinar o lema 1, o teore- ma 3 do post anterior e a proposição 1 acima para obter o resulta- do desejado.
Apesar do enunciado da proposição 2 ser animador (porque escre- vemos assintoticamente em termos da medida
do conjunto
), ainda não estamos em condições de computar a distri- buição
pela seguinte razão: do post anterior sabemos apenas
, de modo que para obter
em termos de
devemos derivar em
duas vezes esta função. Entretanto, neste ponto não esta claro nem que a derivada de
existe!
Para isso, vamos ter que trabalhar um pouco com os conjuntos . Com esse intuito, introduzimos o subconjunto
de
formado pelos lattices
com algum ponto no triângulo
, onde
. Observe que
depende apenas da area
do triângulo
porque todos os triângulos com area fixada são equivalentes por uma transformação em
e a medida
é
-invariante. Em particular, podemos definir a função
por
com as convenções e
.
Como ja comentamos, para encontrar uma formula para eventualmente teremos que derivar duas vezes
:
Lema 1. Suponha que
(i.e.,
é duas vezes diferenciavel e
é continua). Então,
.
Prova. Escrevemos em “soma telescopica” assim:
.
Colocando isto em termos da função , obtemos
.
Sendo diferenciavel, segue que
.
Por outro lado, supondo duas vezes diferenciavel, sabemos que
. Mais ainda, como
, vemos que
em
. Combinando esses dois fatos, obtemos que
.
Juntando as identidades acima, obtemos
.
Isto termina a prova do lema tendo em vista a proposição 2 e o fato (discutido no post anterior) de .
Observação 1. Ainda supondo que , vemos que a definição de
e o lema 1 implicam
para quaisquer com
. Isto fornece a se- guinte interpretação geométrica para
em termos de
: o va- lor
é a medida do conjunto de lattices
intersectando
em exatamente dois pontos - um deles com coordenadas
verificando
e o outro com coordenadas
verificando
.
Do lema 1, o calculo da distribuição de
fica reduzido a computar explicitamente a função
e verificar que
. Para isso, vamos recapitular alguns fatos conhecidos sobre a teoria de redes unimodulares.
Denotamos por o espaço de redes unimodulares de
(i.e., subgrupos discretos
isomorfos a
com covolume 1) e
a medida de Haar de
. Um vetor
de uma rede
é dito primitivo sempre que existir
tal que
é uma
-base de
. Equivalentemente,
é primitivo quando
para todo
. No que se segue iremos utilizar os seguintes fatos:
- o subconjunto
de redes possuindo
como um vetor primitivo forma um circulo (na verdade um horociclo fechado);
- dado
um compacto convexo, a area de
é
onde
é a quantidade de vetores primitivos de
em
;
- em particular, tomando
suficientemente pequeno de modo que
para todo
, vemos que o conjunto de lattices com vetor primitivo em
tem
-medida igual a
vezes a area de
;
- mais ainda, podemos desintegrar a medida
de um subconjunto mensuravel
assim:
, onde
é a medida (normalizada) de Lebesgue do circulo
.
Neste ponto, nosso objetivo sera usar a observação 1 com a des- integração de para expressar
como uma integral dupla. Nesse sentido, em vista da interpretação geométrica de
(na observação 1), olhamos para os lattices
intersectando o triângulo
em dois pontos com coordenadas
satisfa- zendo
e
. Note que a diferença entre esses dois pontos de
é um vetor primitivo: caso contrario,
iria conter um terceiro ponto no segmento de reta determinado por esses dois pontos; sendo
convexo (porque ele é um triângulo) seguiria que
intersectaria
em três pontos, uma contradição com nossa hipotese. Usando esse vetor primitivo, aplicamos a desintegração de
para exprimir
como uma integral nas
coordenadas
dos vetores de
na fronteira de
: para
, escrevemos
e lembramos que
parametriza os lattices contendo
; em seguida, denotamos por
a (
)-medida do subconjunto de
formado por lattices disjuntos do interior de
. Observe que escrevemos
ao invés de
porque essa quantidade depende apenas de
. Com essa notação, a formula de
em integral dupla é:
Proposição 3. A função
é continua exceto num subconjunto de
. Mais ainda, para
, temos
.
Em particular, segue que
é continua.
Prova. O fato de ser continuo é imediato exceto quando o vetor
é horizontal (em particular ele fica paralelo ao terceiro lado de
). Isto prova a primeira afirmação da proposição porque
horizontal implica
. No mais, como
, a integral dupla acima existe e varia continuamente com
. Finalmente, para ver que esta integral coincide com
e
, usamos a interpretação geométrica de
(discutida no paragrafo anterior ao enunciado da proposição) combinado com o fato de
ser o produto dos comprimentos dos segmentos de reta
e
onde os vetores do lattice variam (além do fato de que estamos utilizando os fatores na formula de desintegração de
).
Para tornar a proposição 3 um pouco mais util, precisamos computar . A idéia para fazer isso consiste em fazer considerações geométricas apos uma mudança afim de coordenadas de
para
levando o triângulo
no triângulo isosceles
de area . Como o triângulo
tem area
, esta transformação multiplica a area pelo fator
.
Apesar do argumento não ser muito complicado, deixaremos para o leitor curioso ver a prova do lemma 3.12 para os detalhes da demonstração do seguinte fato:
Lema 2. Para quaisquer
e
vale
. Além disso, para
, temos
com
. Aqui estamos interpretando
Com este fato em mãos, achar uma formula explicita para (a distribuição assintotica das lacunas de
) vira um exercicio de Calculo I. Com efeito, seguindo combinando a proposição 3 com o lema 2 e calculando algumas integrais (como na prova do teorema 3.14 de Elkies e McMullen), o leitor eventualmente acabara demonstrando o seguinte resultado:
Teorema 2. Temos
onde
e
são
e
.
Aqui
e
,
,
,
e
.
Dito de outro modo, acabamos de completar a prova do teorema de Elkies e McMullen (conforme enunciado no primeiro post introdu- torio) modulo o teorema 1 (o qual assumimos durante toda esta seção)!
Com isso, encerramos essa seção e passamos para a questão de relacionar o teorema 1 com a teoria ergodica de fluxos homo- gêneos.
-Relação entre o teorema 1 e fluxos homogêneos-
Lembramos que o teorema 1 fala sobre a equidistribuição da fa- milia de circulos de lattices quando
. Para reformular o teorema 1 numa linguagem apropriada, obser- vamos que toda a ação ocorre no grupo especial afim
o qual iremos re-escrever como
.
Note que este grupo atua em através das transformações afins conservativas
.
Denotamos por o subgrupo formado pelas matrizes com entradas inteiras e observamos que o espaço de lattices (uni- modulares)
é naturalmente identificado com
: tomamos o lattice inteiro
como ponto base e para cada
associamos o lattice
.
Esta aplicação é sobrejetiva e se e so se
(como o leitor pode verificar), de maneira que isto é um isomor- fismo entre
e
.
No caso particular dos lattices , os elementos de
associados por esse isomorfismo podem ser calculados explicita- mente do seguinto jeito: relembramos do post anterior que
,
donde os pontos em notação matricial ficam:
,
onde é a matriz diagonal
e
.
Logo, é o lattice
.
Em outras palavras, é identificado com
. Resumindo, vemos que o teorema 1 é equivalente ao seguinte enunciado:
Teorema 3. Os circulos
ficam e- quidistribuidos em
quando
, i.e., para toda
vale
.
Uma vez que o teorema 1 foi “traduzido” para o teorema 3, nosso plano sera utilizar a teoria ergodica do fluxo homogêneo no es- paço
: mais precisamente, iremos explorar o fato do circulo
ser um horociclo não-linear (um con- ceito a ser discutido depois) para derivar o teorema 3 de um re- sultado mais geral sobre a equidistribuição de horociclos não-li- neares pelo fluxo de
. Porém, como uma explicação detalhada disso leva um certo tempo, deixaremos para o proximo post esta discussão.