Começaremos a discussão de hoje esclarecendo um pouco mais o esquema da prova do teorema de Elkies e McMullen (sobre a distribuição das lacunas de (mod 1) exposto no penultimo paragrafo do post passado. Conforme ja tinhamos adiantado, a idéia consiste em relacionar a distribuição de
(mod 1) com a teoria ergodica de lattices aleatorios. Antes de entrarmos nos pormenores, vamos introduzir algumas notações. Lembramos que
é uma rede se
é um subgrupo discreto isomorfo à
. Dizemos que uma rede
é unimodular se o toro
tem area 1. Além disso, um lattice
é um subconjunto da forma
onde
e
é uma rede.
Observação 0. Normalmente, o que chamamos acima de “rede” usualmente corresponde a um lattice na literatura, sendo que o que chamamos de “lattice” é denotado por “lattice translate” no artigo de Elkies e McMullen. Entretanto, suponho que não teremos problemas com a notação (pelo contrario, como estaremos apenas interessados nas translações das redes, essa notação sera benéfica).
Denotaremos por o espaço de lattices unimodulares. Como o leitor pode verificar, este espaço é naturalmente identificado com
onde é o grupo de transformações afins
da forma
com
e
é o subgrupo discreto de
cujos elementos
satisfazem
e
.
Uma consequência direta dessa identificação é o fato de possuir uma unica probabilidade
invariante pela ação pela esquerda de
(sendo esta probabilidade dita a medida de Haar de
). Em particular, a noção de “lattice aleatorio” de
faz sentido: um lattice aleatorio sera um lattice com propriedades genéricas com relação a
, i.e., lattices satisfazendo propriedades definindo um conjunto de
probabilidade total).
Neste ponto, podemos fazer um esquema informal da prova do teorema de Elkies e McMullen.
-Programa da prova do teorema de Elkies e McMullen-
Fixemos N inteiro grande, e
, onde
é tomado aleatoriamente (com relação a medida de Lebesgue). Nesses termos, o programa da demonstração sera o seguinte:
- determinar a distribuição de
(mod 1) equivale a computar a probabilidade
de
conter algum ponto
com
;
- por outro lado,
para algum
para algum
;
- em seguida, mostra-se que, para efeitos do calculo da distribuição das lacunas de
, podemos trocar
por sua aproximação linear
;
- além disso, prova-se que podemos assumir que
é um quadrado;
- com estes fatos em mãos, olhamos para a aproximação linear
de
e notamos que
(para
)
(para
)
- esta ultima condição pode ser escrita como
onde
é o triângulo de area
definido por
.
- denotando por
o triângulo “padrão” de area
com vértices
e considerando
a unica transformação afim com
e
, podemos reescrever a condição anterior como
;
- resumindo, toda a discussão acima permite traduzirmos o calculo da probabilidade
de
conter algum elemento
com
no problema de computar a probabilidade do lattice
intersectar o triângulo padrão
.
- entretanto, para
grande espera-se que
se comporte como um lattice aleatorio: de fato, assim como todo bom lattice aleatorio, temos que a sequência
é uniformemente distribuida - para toda
função continua de suporte compacto de
vale
quando
- usando o resultado de distribuição uniforme anterior, veremos que
quando
, onde
é a probabilidade de um lattice aleatorio intersectar o triângulo padrão
;
- finalmente, revertendo as traduções, mostra-se que
, onde
é a distribuição de lacunas de
, o que acaba a demonstração porque
pode ser calculado explicitamente através de formulas naturais para a medida
.
Apos esta descrição informal do programa de Elkies e McMullen, passaremos a discutir com certo nivel de detalhes todos os pontos acima.
-Algumas reduções preliminares-
Para cada inteiro, definimos a função
assim. Consideramos os
pontos
,
, do circulo
. Isso fornece uma partição do circulo em
intervalos
dos quais
tem tamanho zero (estes intervalos são as lacunas de
,
). Nessa notação,
Deixamos para o leitor verificar as seguintes propriedades elementares de :
é não-decrescente e continua pela esquerda (de fato,
é constante exceto por quantidade finita de saltos); além disso,
e
;
(porque
é a soma dos comprimentos das lacunas);
Nesses termos, o resultado de Elkies e McMullen se converte no seguinte teorema:
Teorema 1. Existe uma função continua
tal que
uniformemente em compactos quando
. Mais ainda,
,
onde é uma função explicita a ser calculada mais tarde.
Note que a função acima é a distribuição das lacunas de
procurada: com efeito, para todo
, a quantidade de lacunas de
(
) com tamanho entre
e
é assintotico à
.
Para estudar , introduzimos
dada por
Usando podemos escrever a união das lacunas de tamanho
como
Em particular, , de maneira que o teorema 1 equivale à:
Teorema 2.
uniformemente para
variando em compactos quando
.
Agora vamos falar um pouco das reduções do(s) teorema(s) acima. A primeira simplificação do teorema 1 foi anunciada no quarto ponto do programa discutido anteriormente: no enunciado deste teorema podemos assumir que é um quadrado perfeito, i.e.,
com
. Mais precisamente, temos o seguinte enunciado:
Lema 1 (lemma 3.1 de Elkies e McMullen). Suponha que
converge unif. em compactos para uma função continua
quando
. Então,
também converge (unif. em compactos) para
quando
.
Prova. Observe que todo inteiro esta a uma distância de
de um quadrado perfeito
. Por outro lado, a troca de
por
muda
dos tamanhos das lacunas (ao maximo) e multiplica o fator normalizante
por
. Em particular, segue que
unif. em compactos implica
unif. em compactos.
A segunda simplificação foi descrita no segundo e terceiro pontos do programa de Elkies e McMullen: no estudo de podemos trocar as expressões quadraticas por suas aproximações lineares sem afetar as assintoticas. Para descrever detalhadamente isso, precisaremos introduzir mais alguma notação. Lembre que cada inteiro
pode ser escrito de maneira unica como
onde
. Utilizando o lema 1, podemos assumir que
é um quadrado perfeito, digamos
. Nessa situação, vemos que
onde é o menor numero real
com
para algum
inteiro e
é o maior numero real
com
para algum
inteiro. Para entender melhor a função
fazemos a seguinte observação aritmética:
Observação 1. Para (
), temos que
se e so se
. Além disso, temos
quando
.
Usando esta pequena observação, podemos re-escrever a identidade como
onde
variam sobre os inteiros satisfazendo
e
.
Observação 2. De fato, esta ultima condição sobre é superflua: por um lado,
equivale a
e por outro lado
e
estão entre 0 e 1 ja que
e
.
Continuando o estudo de , iremos aplicar a idéia discutida no terceiro ponto do programa de Elkies e McMullen: na definição de
(feita na obs. 1), trocamos
pela sua aproximação linear
em torno de
. Com essa troca,
é substituido por
. Por esse motivo, vamos considerar
a solução da equação
e vamos trocar por
na definição de
, de modo que obtemos a função
onde e
variam sobre os inteiros satisfazendo
e
.
Observação 2′. Assim como na observação 2, a condição acima sobre é superflua.
Analogamente ao conjunto , definimos
Como antecipamos no terceiro ponto do programa de Elkies e McMullen, a troca de por sua aproximação linear (ou equiva- lentemente a troca de
por
) na definição de
não altera as assintoticas. Mais precisamente, temos o seguinte teorema:
Teorema 3 (proposition 3.2 de Elkies e McMullen). Suponha que
converge unif. em compactos para
com
continua. Então o mesmo ocorre com
:
quando
(unif. em compactos).
A explicação “conceitual” para a validade desse teorema é: tipicamente espera-se que , de modo que
(ja que
é a solução da equação
). Mais ainda, dado
, temos
para a “maioria” dos pares
. Portanto, a expectativa é que a troca de
por
muda o tamanho da maioria das lacunas de
, o que não altera o comportamento assintotico de
.
Para formalizar a explicação anterior, consideramos o quociente
.
Manipulando essa informação (veja o lemma 3.3 do artigo de Elkies e McMullen), segue que
Lema 2. Para todo
vale
. Além disso, para todo
, temos que a estimativa
para todo exceto para um conjunto de tamanho
.
Como o leitor pode verificar, este lema implica facilmente nas seguintes estimativas
e
para todo e
. Usando essas estimativas com
(ou qualquer outra função crescente de
com
), obtemos o teorema 3.
Uma vez que temos o teorema 3 em mãos, nosso objetivo fica reduzido ao estudo assintotico de . Para isso, faremos na proxima seção a interpretação dessa quantidade em termos de lattices conforme proposto os pontos 5, 6, 7 e 8 do programa de Elkies e McMullen.
-Interpretação geométrica de -
Como dissemos no ponto 6 do programa, vamos usar um triângulo conveniente (cuja forma ja explicitamos). Com nossa notação atual,
é o triângulo no plano
cujo interior é determinado pelas desigualdades
,
para . Fazendo as traduções diretas das notações, o leitor pode checar facilmente que
é interpretado em termos de
como no seguinte lema:
Lema 3. Para cada
e
, temos as seguintes possibilidades:
- se
, então
é a area
do maior triângulo
(definido acima) cujo interior não intersecta
;
- se
, então todos triângulos
como acima contém o ponto
cujas coordenadas satisfazem
com
.
Em seguida, fazemos uma “limpeza” no enunciado do lema acima observando que as possibilidades não afetam
exceto para
num subconjunto de tamanho
:
Lema 4. A caracterização da quantidade
feita no lema 3 não é alterada pela inclusão dos casos
exceto se
ou
.
A prova desse lema é uma simples analise de caso: para os de- talhes veja o lemma 3.7 de Elkies e McMullen. Usando este lema, segue que a inclusão dos casos não afeta a assintotica de
(ja que esta modificação altera os valores de
apenas num subconjunto de tamanho
).
Agora aplicaremos a idéia discutida no ponto 7 do programa: consideramos a transformação afim de
definida por
Observe que leva o vértice
na origem
, o triângulo
no triângulo
e o lattice no lattice
dado por
.
Note que o triângulo “padrão” depende de
mas não de
(para efeitos de comparação, esse triângulo corresponde ao triângulo
do ponto 7 do programa de Elkies e McMullen).
Para finalizar nossas interpretações, introduzimos a seguinte definição:
Definição 1. Dado um lattice
no plano
, denotamos por
a area
do maior triângulo da forma
disjunto de
com as convenções
quando não existir um tal triângulo e
quando todos estes triângulos forem disjuntos de
.
Com essa notação, podemos aplicar o lema 4 para resumir toda essa discussão no seguinte fato:
Proposição 1 (proposition 3.8 de Elkies e McMullen). Para todo
, o conjunto dos
com
tem tamanho
.
Em outras palavras, a proposição 1 diz que a questão de estudar a assintotica de fica reduzida ao estudo do comportamento da função
na familia de lattices
.
Nesse ponto, fica faltando “apenas” detalhar os pontos restantes (9, 10, 11) do programa. Moralmente, esses pontos essencialmente falam que o estudo de nos lattices
pode ser feito usando-se a teoria ergodica de lattices aleatorios (em particular, os teoremas de Ratner são bem uteis nessa tarefa).
Entretanto, deixaremos a discussão da parte “ergodica” da prova do teorema de Elkies e McMullen para os proximos posts. Até la!