Ola! Ontem eu coloquei no blog em ingles um pequeno resumo e os slides (em ingles) de uma palestra proferida por mim em Orsay (30 de Abril).
Por enquanto e so! Ate breve!
Ola! Ontem eu coloquei no blog em ingles um pequeno resumo e os slides (em ingles) de uma palestra proferida por mim em Orsay (30 de Abril).
Por enquanto e so! Ate breve!
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No dia 15 de Abril (duas semanas atras), o presidente do Brasil Luis Inacio “Lula” da Silva visitou o IMPA – Instituto de Matematica Pura e Aplicada – para discutir alguns aspectos do ensino e pesquisa matematicas no Brasil. E interessante notar que esta e a primeira vez que o presidente da Republica vista o IMPA. O leitor pode conferir algumas fotos do evento aqui.
Como brasileiro e ex-aluno do IMPA (onde obtive meu titulo de doutor), fico contente com a iniciativa do governo Brasileiro de dar a merecida atencao e suporte as ciencias basicas, especialmente a Matematica (apesar da atual politica ainda possuir diversos pontos fracas na sua implementacao: ma distribuicao de concursos publicos nas univerdades, etc.). Em todo caso, eu apreciei bastante as declaracoes do presidente Lula (as quais dispensam comentarios) enquanto fiquei bem chateado com as declaracoes demagogicas do governador do Rio (Sergio Cabral) o qual disse: “… O Impa já organizava uma olimpíada voltada para escolas particulares e o que faz o presidente? Pega o Impa que é reconhecido no mundo inteiro e tira o Impa de um pedestal acadêmico e traz ele para a vida como ela é, para o povo brasileiro, realizando a olimpíada da matemática…” Voce pode encontrar um resumo das declaracoes de Lula e Cabral aqui.
Para finalizar, se o leitor me permitir, farei alguns comentarios sobre as absurdas frases de Cabral:
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Durante meu curso de Analise Complexa no mestrado do IMPA (com o saudoso professor Carlos Isnard), um topico que sempre me fascinou foi a teoria de funções univalentes (e em especial o belissimo teorema de unifromização de Riemann). No post de hoje, eu pretendo falar de um topico não mencionado durante o curso do prof. Isnard (por falta de tempo e em detrimento do teorema de uniformização), a saber, a desigualdade de Bieberbach e o teorema 1/4 de Koebe.
-A desigualdade de Bieberbach-
Teorema (Bieberbach). Seja um biholomorfismo entre o disco unitario
e um dominio aberto
. Escreva a serie de Taylor de
como
.
Então, . Mais ainda, a igualdade ocorre se e somente se
é uma semi-reta fechada apontando para
.
Observação Historica. Motivado por este resultado, Bieberbach conjecturou que para todo
. Note que a igualdade nessa conjectura (e a fortiori no teorema) é atingida por
onde . Atualmente, esta conjectura é um teorema devido ao (dificil) trabalho de Louis de Branges (apos os esforços de diversos matematicos dentre eles C. Löwner o qual criou a chamada equação de Löwner, uma ferramenta que veio a ser decisiva em um ramo da probabilidade chamado teoria da percolação, para mostrar que
). O trabalho de de Branges utiliza a teoria de Hilbert de funções holomorfas (além da equação de Löwner).
A prova do teorema de Bieberbach é bem simples uma vez que saibamos a seguinte estimativa:
Lema 1 (estimativa de area de Gronwall). Seja um biholomorfismo entre o complementar do disco unitario e o complementar do compacto conexo
. Assuma que
tem série de Laurent
Então, a area de é dada pela formula:
.
Uma consequência direta interessante deste lema é:
Corolario 1 (Gronwall). Nas condições do lema 1, temos . Mais ainda, a igualdade ocorre se e so se
é um segmento de reta.
Prova do corolario 1. Como , o lema 1 implica que
. Em particular,
. Por outro lado, a igualdade ocorre se e so se os coeficientes restantes da serie de Laurent são todos nulos:
.
Fazendo uma rotação na coordenada e uma mudança linear de coordenadas em
(se necessario), podemos reduzir a série de Laurent de
a
, uma transformação levando
no segmento de reta
.
Por enquanto, vamos assumir o lema 1 e provar o teorema de Bieberbach:
Prova do teorema de Bieberbach. A menos de trocar por
, podemos assumir que
e
(i.e.,
e
). Agora fazemos
e
, de maneira que cada ponto
(resp.
) corresponde a dois pontos
(resp.
). Calculando a série de Laurent de
em termos de
e
, temos
Esta aplicação leva biholomorficamente numa vizinhaça simétrica
do infinito. Pelo corolario 1, vemos que
, i.e.,
). Além disso, o corolario 1 diz que a igualdade ocorre se e so se
é o complementar de um segmento de reta (o qual deve estar centrado na origem por simetria de
). Expressando isso em termos das coordenadas
e
iniciais, temos que
é o complementar de uma semi-reta fechada apontando para
.
-Prova do lema 1 (estimativa de area de Gronwall)-
A idéia aqui é bem simples: para cada , a imagem do circulo de raio
por
sera uma curva em
limitando uma região de area
contendo
de modo que
. Portanto, nosso trabalho consiste em calcular
. Isto pode ser feito utilizando a formula de Green:
onde e a integração é feita na imagem por
de
. Substituindo a série de Laurent
com
na formula acima, obtemos
.
Como a integral acima é não-nula (e igual a ) se e so se
, segue que
.
Fazendo , o lema 1 fica provado.
-O teorema 1/4 de Koebe-
Para encerrar este post, daremos a prova do importante (em dinamica complexa p. ex.) teorema 1/4 de Koebe como uma aplicação do teorema de Bieberbach.
Teorema (1/4 de Koebe). Seja um biholomorfismo entre o disco unitario
e um aberto
. Então, a distância
entre
e o bordo
de
satisfaz a estimativa
.
Além disso, a igualdade ocorre se e so se
é uma semi-reta apontando para
e a igualdade
ocorre se e so se
é um disco centrado em
.
Um corolario imediato muito interessante (para a dinâmica complexa) é o seguinte fato:
Corolario 2. Dada uma função holomorfa univalente (i.e., injetiva) com
e
, então o aberto
contém o disco
de raio
centrado na origem.
Prova do teorema 1/4 de Koebe. Trocando por
, podemos supor que
e
. Fixe
um ponto do bordo realizando a distância
entre
e a origem
. Nosso objetivo é mostrar que
.
Compondo com a transformação de Möbius
(enviando
para o infinito), obtemos uma transformação holomorfa univalente
em
da forma
Pelo teorema de Bieberbach (aplicado para e
),
e
. Logo,
, i.e.,
. Mais ainda, a igualdade
ocorre se e so se
e
. Pelo teorema de Bieberbach,
implica que
é o complementar de uma semi-reta fechada apontando para
. Com isto mostramos a primeira parte do teorema de Koebe.
A segunda parte deste teorema é uma consequência do teorema de Schwarz: supondo que , segue que a transformação inversa
envia
dentro de si mesmo,
e sua derivada na origem é
. Por Schwarz,
é a identidade (donde
e
é o disco unitario centrado na origem).
Publicado em Matematica, divulgação | Tagged conjectura de Bieberbach, desigualdade de Bieberbach, teorema 1/4 de Koebe | 4 Comentários »
Olhando hoje os topicos matematicos em portugues mais procurados (segundo a lista na minha conta para este blog), vi que alguém deseja ver a demonstração da formula classica de Euler para a soma dos inversos dos quadrados:
.
Logicamente, esta bela formula possui varias demonstrações e muitas deles estão expostas em inglês na Wikipedia (alem desta referência aqui a qual contém 14 demonstrações dessa formula).
O objetivo deste post sera expor em portugues a prova deste belo resultado. No que segue, irei me basear neste artigo da Wikipedia em inglês sobre o problema de Basel (para a solução de Euler) e na referência aqui com 14 demonstrações (da qual falarei apenas da primeira prova).
-A idéia de Euler-
Como podemos esperar de L. Euler, a sua idéia é muito esperta: ele comeca com o fato elementar de que todo polinômio pode ser fatorado com polinômios lineares da forma
sempre que
é uma raiz de
e assume que o mesmo pode ser feito com séries infinitas (de fato, Euler anunciou esta solução em 1735, mas a justificativa rigorosa so foi aparecer em 1741 precisamente por causa desse ‘propriedade’ para séries infinitas que ele assume).
Mais precisamente, Euler olha para a expansão em série do seno:
Dividindo por temos
(1) .
Por outro lado, sabemos que os zeros de ocorrem exatamente nos pontos
com
. Em particular, supondo que podemos fatorar esta série em fatores lineares (em analogia com o caso de polinômios) obtemos
.
Observação 1. Normalmente, quando fatoramos um polinômio, escrevemos ele como produto de polinômios lineares da forma . No entanto, na expressão acima estamos trocando
por
na esperança de obter uma expressão que resulte em um produtorio convergente (com efeito, a analise de convergencia de um produtorio é feita olhando a distância do termo geral para 1).
Agora, separando o ‘coeficiente’ de no produtorio acima, obtemos
.
Entretanto, o coeficiente de na expansão (1) em série de Taylor de
é
. Logo, temos a identidade
,
ou seja,
.
Observação 2. Obviamente, como ja advertimos anteriormente, esta derivação não é rigorosa.
-Uma prova rigorosa da identidade -
Veremos agora uma derivação rigorosa da solução de Euler do problema de Basel (retirada de um artigo expositorio de Apostol). Começamos por observar que
.
Pelo teorema da convergência monotona, segue que
.
Fazendo a mudança de variaveis , obtemos
(2)
onde é o quadrado de vertices
e
. Usando as simetrias desse quadrado, vemos que
.
Integrando, temos
(3) .
Para a primeira integral usamos que , donde
(4) .
Ja para a segunda integral, fazemos a mudança , segue que
e
, ou seja,
e, a fortiori,
. Portanto,
(5) .
Substituindo (4) e (5) em (3), segue que
.
Colocando essa informação em (2), concluimos que .
Publicado em Matematica, divulgação | Tagged L. Euler, problema de Basel, soma dos inversos dos quadrados dos inteiros | 1 Comentário »
Normalmente eu evito discussões politicas em meus blogs porque basicamente dedico eles somente a Matematica. Entretanto, como eu ja escrevi no blog da minha esposa, resolvi abrir uma exceção pelo seguinte motivo: dois amigos e matematicos Iranianos foram impedidos de entrar na Alemanha e Franca por razoes arbitrarias (para ver minhas duas justificativas para a denominação ‘arbitraria’, veja o post em portugues ou em ingles).
Bom, todos aqueles que desejam apoiar a causa, por favor juntem-se a nos no seguinte blog (fundado pelo Ali e Hossein):
http://iranianmath.blogspot.com/
Me despeço aqui! Ate mais!
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Oi! Estou passando para dizer duas coisas:
Bem, sem mais para o momento, fico por aqui! Até ja!
Publicado em Matematica, divulgação, math.DS | Tagged cociclo de Kontsevich-Zorich, G. Forni, superficies de Veech | Deixar um comentário »
Lembramos que o teorema de Kaloshin e Rodnianski é:
Teorema. Dois elementos genéricos (no sentido da medida de Haar)
são fracamente Diofantinos no seguinte sentido: existe uma constante
tal que
para toda
palavra de tamanho
nas letras
.
Conforme adiantamos no post anterior, vamos utilizar a seguinte notação: dados , denotamos por
os ângulos de rotação de
e
o ângulo entre os eixos de rotação
de
. Sem perda de generalidade, iremos assumir que
esta normalizada de maneira que
é o eixo
em
. No mais, denotaremos as palavras
por
. Para trabalhar melhor com as palavras de um dado tamanho, introduzimos multi-indices
onde
e
podem ser zero mas os outros
inteiros são todos não-nulos. O tamanho
do multi-indice
é
. A palavra
parametrizada por
é
.
Com esta notação e utilizando o fato da medida de Haar em
ser equivalente a medida de Lebesgue
no espaço de parâmetros
, vemos que o teorema de Kaloshin e Rodnianski equivale à:
Teorema. Para
quase todo
, existe uma constante
tal que
para todo
.
Dada uma constante , defina
e
.
Como ja antecipamos na discussão anterior, um argumento simples usando o lema de Borel-Cantelli mostra que o teorema acima é uma consequência do seguinte fato:
Teorema 1. Existe uma constante
tal que
.
No que se segue, iremos nos concentrar na prova do teorema 1. Para isso, adotaremos a seguinte estratégia:
-Redução do teorema 1 ao estudo da derivada -
Defina . Para comparar as medidas de Lebesgue de
e
, precisaremos do seguinte lema:
Lema 1.
Prova. Os elementos de podem ser escritos em representação quaterniônica como
onde é o ângulo de rotação e
é o eixo de rotação. Nesta representação, temos
.
Derivando duas vezes em , obtemos
.
Isto encerra a prova do lema 1.
Com este lema em mãos, podemos mostrar sem dificuldades o seguinte fato:
Lema 2. Dado um multi-indice de tamanho
, temos
.
Prova. Dado , vemos da definição de
e do lema 1
.
Em seguida, dividimos o circulo em
intervalos de tamanhos iguais e denotamos por
o intervalo contendo
. As estimativas acima e o teorema de Taylor implicam que
.
Logo, obtemos que a medida de Lebesgue do conjunto dos tais que
é
. Juntando estas estimativas sobre todos os
intervalos
e usando o teorema de Fubini, temos a prova do lema.
-A derivada como um polinômio trigonométrico-
Lema 3. Cada palavra de tamanho
esta associada a um polinômio
de grau
com coeficientes inteiros tal que
.
Prova. Isso segue de um calculo explicito usando a representação quaterniônica para (veja a prova do lema 1).
Como ja comentamos, a proxima etapa consiste em utilizar a informação do lema acima para estimar o tamanho do conjunto . Mais precisamente, temos o seguinte teorema:
Teorema 2. Existe uma constante
tal que
para todo multi-indice
de tamanho
suficientemente grande.
Antes de entrar nos detalhes do teorema 2, vejamos que o teorema 1 segue do teorema 2.
Prova do teorema 1 (assumindo o teorema 2). Observamos que o numero de palavras de tamanho é
. Portanto, o teorema 2 e o lema 2 dizem que
para todo grande. Em particular, o resultado de somabilidade desejado segue.
Para encerrar o post de hoje, vamos fazer um esquema da prova do teorema 2 na proxima seção.
-Estimativas para polinômios e eliminação de variaveis-
Lembramos ao leitor do seguinte lema de estimativa de polinômios em uma variavel:
Lema 4 (Dani, Kleinbock e Margulis). Seja um polinômio real de grau
e denote por
. Então, para todo
intervalo compacto e todo
, temos
A prova deste resultado usa interpolação de Lagrange ao longo de um conjunto de pontos bem-escolhidos. O leitor curioso por mais detalhes pode ver a (curta) demonstração do lemma 2 do meu post em ingles sobre o teorema de Fayad e Krikorian (cuja prova é, por sua vez, baseada nestes argumentos de Kaloshin e Rodnianski).
Logicamente, o lema 4 não pode ser aplicado diretamente ao nosso caso porque nossos polinômios possuem varias variaveis (as quais possuem relações entre elas). Entretanto, esta dificuldade técnica pode ser contornada através do método de eliminação de variaveis. Para explicar como este método funciona, consideramos
dois polinômios em duas variaveis
. O estudo dos zeros comuns de
pode ser reduzido ao estudo dos zeros de um polinômio em uma variavel do seguinte modo: fixando
, sabemos dos cursos de Algebra que a existência de raizes comuns
de
é completamente determinada pelo anulamento do polinômio resultante
(o qual depende apenas da variavel
). Ou seja, a questão de entender zeros comuns de polinômios com duas variaveis pode ser reduzida ao problema de entender os zeros de um polinômio de uma variavel (com grau ligeiramente maior). Logicamente que para a aplicação desta idéia no contexto do lema 4, precisamos de versões quantitativas do método de eliminação de variaveis. Felizmente, isso foi feito por Kaloshin e Rodnianski no lema 6 do artigo. Entretanto, para fazer o método funcionar no nosso caso é necessario acompanhar todas as constantes e graus dos polinômios envolvidos na eliminação, o que é um trabalho técnico que não pode ser descrito em detalhes em um post. Porém, podemos dar uma idéia geral de como o processo ocorre.
Pelo lema 3, a prova do teorema 2 fica reduzida a uma estimativa do tamanho de conjuntos da forma
.
Com esse intuito, notamos que, fazendo e
, essa tarefa essencialmente equivale a estudar o conjunto de soluções comuns para as equações polinomiais
e
.
Em seguida, aplicamos o método de eliminação de variaveis três vezes na seguinte ordem: primeiro eliminamos a variavel através do polinômio resultando
entre
e
; depois, eliminamos (de modo analogo ao anterior)
através da resultante
entre
e
; finalmente, eliminamos
obtendo um polinômio
.
Para justificar porque a eliminação fornece boas estimativas, precisamos saber
que é um polinômio não-degenerado (i.e.,
não é identicamente nulo). No nosso caso, o processo de eliminação nunca é degenerado porque a resultante entre
e
identicamente nula implicaria que a função
é degenerada (i.e., constante). Entretanto, desde os trabalhos de Hausdorff no paradoxo de Banach-Tarski, sabemos que elementos genéricos de
geram um grupo livre, de modo que a função
não pode ser constante (isto pode ser visto diretamente da representação quarteniônica: veja o lemma 2 de Kaloshin e Rodnianski).
Com isso, o esquema da prova do teorema 2 esta terminado! Ate mais!
Publicado em Matematica, divulgação, math.NT | Tagged propriedade Diofantina em SO(3), teorema de Kaloshin e Rodnianski | Deixar um comentário »
Ola! Hoje eu pretendo iniciar a discussão de um resultado de V. Kaloshin e I. Rodinianski sobre a genericidade de elementos Diofantinos dos grupos e
. A motivação basica consiste em estender para o contexto não-comutativo o seguinte teorema bem-conhecido sobre a ma-aproximação de numeros reais ”tipicos”:
Teorema 0. Quase todo numero real
(no sentido da medida de Lebesgue) é Diofantino: existem constantes
tais que
para quaisquer
inteiros.
Observação 0. Um argumento topologico simples (baseado no teorema de Baire), mostra que o conjunto de numeros Liouville (i.e., os numeros não-Diofan- tinos) é residual. A prova deste fato é deixado como exercicio. (Sugestão: Utilize a negação da condição Diofantina para escrever os numeros Liouville como a uniao enumeravel de abertos densos).
Certamente o leitor ja deve ter encontrado varios contextos onde as propriedades Diofantinas dos numeros reais são fundamentais: por exemplo, em Sistemas Dinâmicos, sabemos que as propriedades Diofantinas dos numeros de rotação de difeomorfismos do circulo e dos autovalores da derivada em pontos periodicos de transformações holomorfas estão profundamente ligadas as questões de linearização e conjugação de tais sistemas (veja estes dois trabalhos de Yoccoz, por exemplo), enquanto que na teoria KAM é bem-co- nhecida a persistencia das dinâmicas correspondentes a toros invariantes suportando rotações de ângulos verificando condições Diofantionas (veja esta exposição de Yoccoz sobre os trabalhos de Herman, por exemplo).
Visando generalizar o teorema 0 para o contexto de grupos não-comutativos, uma formulação natural da propriedade Diofantina nos grupos e
é a seguinte:
Definição 1. Dizemos que (ou
) são Diofantinos sempre que existir uma constante
tal que toda palavra
de tamanho
sobre as letras
verifica
(1) .
Aqui é a identidade.
Observação 1. Tendo em vista palavras como (e outras similares), segue que uma condição necessaria para que os elementos
sejam Diofantinos é que o subgrupo gerado por
seja livre.
Observação 2. Um argumento simples baseado no principio da casa de pombos e na compacidade de mostra que a condição Diofantina acima é op- timal: como a quantidade de palavras de tamanho
cresce exponencial- mente com
, as versões super-exponencial ou polinomial da estimativa (1) são fraca ou forte demais para descrever o comportamento tipico dos elementos de
. Com efeito, o leitor é convidado a verificar que, dados
gerando um subgrupo livre de
e
inteiro, sempre existe uma palavra
de tamanho
sobre as letras
tal que
.
Observação 3. Analogamente ao caso dos numeros reais (vide observação 0), um argumento elementar mostra que para um conjunto residual de pares a condição Diofantina não é satisfeita.
Observação 4. Nas nossas futuras considerações, os papéis de e
são moralmente idênticos porque
é o recobrimento (duplo e universal) de
.
Com esta noção de elementos Diofantinos de e
, o analogo do teorema 0 é:
Conjectura (Gamburd, Jakobson e Sarnak). Quase todos os elementos ou
(no sentido da medida de Haar) são Diofantinos.
No presente momento, esta conjectura encontra-se em aberto (até onde o autor sabe). A relevância da conjectura de Gamburd, Jakobson e Sarnak é expressada na sua aplicação na solução do problema de Ruziewicz.
O problema de Ruziewicz consiste em mostrar que toda probabilidade finitamente aditiva da esfera a qual é invariante pelo grupo de rotações
é a medida de Lebesgue. Na linguagem da teoria ergodica, este problema corresponde a saber se a ação de
em
é unicamente ergodica (com relação ao espaço de probabilidades finitamente aditivas). Note que quando a medida é
-aditiva, este resultado foi provado por Lebesgue. Entretanto, S. Banach provou que este problema tem solução negativa em dimensão
(de fato, J. Rosenblatt melhorou o resultado de Banach provando que existe todo um continuo de probabilidades finitamente aditivas invariantes por rotações do circulo). Por outro lado, G. Margulis e D. Sullivan (independentemente) mostraram que a solução do problema de Ruziewicz é afirmativa quando
usando a chamada propriedade T de Kazhdan. Finalmente, V. Drinfeld resolveu os casos restantes (
) dando uma solução afirmativa ao problema.
Conforme os resultados de J. Rosenblatt, o problema de Ruziewicz pode ser reduzido a questão de achar subgrupos livres de
com a propriedade de lacuna espectral: existe uma constante
tal que para toda função
com média nula podemos encontrar um elemento
com
.
Observação 5. A informação relevante aqui é a condição de lacuna espectral: com efeito, desde os trabalhos de Hausdorff (em 1914) sobre o paradoxo de Banach-Hausdorff-Tarski, sabemos da existência de subgrupos livres com dois geradores. De fato, trabalhando-se um pouco, podemos mostrar que o conjunto de pares de matrizes os quais não geram um subgrupo livre é uma união enumeravel de conjuntos analiticos de codimensão 1 (isto sera visto mais tarde). Portanto, temos uma abundância de subgrupos livres com dois geradores, de maneira que basta achar um subgrupo livre com lacuna espectral dentro deste ”mar” de subgrupos livres para resolver o problema de Ruziewicz.
Observação 6. Generalizando a observação 5, lembramos que Auerbach mostrou que grupos de Lie compactos e simplesmente conexos possuem muitos subgrupos livres: quase todo par de elementos
(com respeito a medida de Haar) gera um subgrupo livre cujo fecho é
.
Uma construção explicita de um subgrupo livre de com lacuna espectral foi feita por Lubotzky, Phillips e Sarnak (via operadores de Hecke), o que fornece uma prova alternativa do problema de Ruziewicz (como comentamos pouco antes da observação 5) no delicado caso
(veja também esta nota de Hee Oh). Entretanto, esta construção deixa aberta a pergunta natural de entender a frequência de ocorrência de subgrupos livres de
e/ou
com lacuna espectral.
Neste sentido, Bourgain e Gamburd recentemente ( 2008 ) mostraram que todos os subgrupos livres de gerados por elementos Diofantinos possuem lacuna espectral! Logo, usando a observação de Rosenblatt, os elementos Diofantinos de
podem ser usados para dar uma solução alternativa (mais simples) do problema de Ruziewicz em dimensão 2 (em vista da elaborada solução dada por Drinfeld).
Dito isto, vemos uma clara relação entre a conjectura de Gamburd, Jakobson e Sarnak acima e o problema de Ruziewicz em dimensão 2.
Por outro lado, ja dissemos que esta conjectura encontra-se aberta. Entretanto, temos um (unico) resultado parcial na direção da conjectura:
Teorema 1 (Kaloshin e Rodinianski). Quase todos os elementos
de
(ou
) são fracamente Diofantinos: existe uma constante
tal que toda palavra
de tamanho
sobre as letras
(2)
.
Nosso objetivo sera descrever os principais passos da prova desse teorema. Para efeitos de clareza da exposição, usaremos a observação 4 para nos restringirmos ao caso do grupo . Mais ainda, sendo o tratamento do caso de
elementos
identico ao caso de dois elementos (exceto talvez pela necessidade de uma notação mais complicada), consideraremos apenas a demonstração do teorema de Kaloshin e Rodnianski para dois elementos
tipicos.
Para este post, iremos somente traçar a estrategia a ser seguida, deixando os detalhes para um proximo post. Dados dois elementos distintos , denotamos por
e
os ângulos de rotação de
e
(resp.), e por
o ângulo entre os eixos de rotação
e
de
e
(resp.). Para nossas considerações posteriores, podemos fazer (sem perda de generalidade) a seguinte normalização: o eixo de rotação
de
é o eixo
em
e o eixo de rotação
de
esta contido no plano
fazendo ângulo
com
no sentido horario. Observe que com esta convenção, toda palavra
de tamanho
é unicamente determinada pela escolha deste sistema de coordenadas e pelos parâmetros
Isto permite escrever e considerar o toro tridimensional
como espaço de parâmetros o qual vem equipado com a medida de Lebesgue
. Do modo como nossos parâmetros são definidos, o leitor pode verificar que conjuntos de medida total para a medida de Haar produto
em
correspondem a conjuntos de medida total para
em
.
Neste ponto, a idéia da prova é bastante similar a demonstração de Fayad e Krikorian do teorema de hiperbolicidade de palavras desbalanceadas em ja discutida nestes dois posts anteriores no blog em ingles (cronologicamente falando, a prova de Fayad e Krikorian ( 2008 ) é inspirada na prova de Kaloshin e Rodnianski (2001)). Grosseiramente falando, o ponto é o seguinte argumento do tipo Borel-Cantelli: fixamos uma palavra
de tamanho
em
e consideramos os parâmetros
tais que
esta a uma distância
da identidade
. Denotando por
a medida de Lebesgue
destes parâmetros (variando sobre todas as palavras de tamanho
) para um certo
fixo, o lema de Borel-Cantelli diz que nossa tarefa fica reduzida a mostrar a estimativa:
(3) .
Para provar a estimativa (3), o fato fundamental é que a representação quaterniônica (de Hamilton) dos elementos de permite escrever a distância entre
e
como um polinômio trigonométrico
de grau
em
e todos os coeficientes inteiros. Fixamos
,
e olhamos para o conjunto de parâmetros
tais que
.
Por um lema elementar de Dani, Kleinbock e Margulis sobre a medida de Lebesgue do conjunto de pontos onde um dado polinômio assume valores pequenos, sabemos que
.
Como temos palavras
de tamanho
sobre as letras
(no maximo), segue que
.
Isto mostra a estimativa (3) desejada (fazendo ), o que completaria a prova do teorema 1.
Com isto encerramos as considerações (introdutorias) deste post. No proximo encontro, iremos detalhar um pouco mais a estrategia delineada acima. O leitor desejoso de uma ”preparação” para os argumentos de Kaloshin e Rodnianski num contexto um pouco mais simples (do grupo ) é incentivado a consultar as duas notas do blog em ingles sobre o teorema de Fayad e Krikorian. Fico por aqui! Ate ja!
Publicado em Matematica, divulgação, math.NT | Tagged conjectura de Gamburd, grupos não-comutativos, Jakobson, lacuna espectral, paradoxo de Banach-Tarski, problema de Ruziewicz, propriedade Diofantina, quaternios, Sarnak, teorema de Bourgain e Gamburd, teorema de Kaloshin e Rodnianski | Deixar um comentário »
Ola! Estou passando aqui para avisar (a quem interessar possa) que acabo de postar (na versão em ingles do blog) algumas notas sobre a recente prova de Brendle e Schoen do teorema da esfere diferenciavel. O link para o artigo é o seguinte:
http://matheuscmss.wordpress.com/2008/06/10/the-differentiable-sphere-theorem-of-brendle-and-schoen/
Basicamente, o artigo conta como a utilização das tecnicas do famoso fluxo de Ricci (de R. Hamilton) permitiu que Brendle e Schoen resolvessem a questão da diferenciabilidade no teorema de esfera de Berger e Klingenberg. Este é mais um exemplo (além da famosa prova de Perelman da conjectura de Poincaré) do poder da teoria de fluxo de Ricci… Parafraseando um geometra conhecido meu: ”Ricci flow is a gold mine!”.
Por enquanto é so! Aguardem mais novidades em breve!
Publicado em Matematica, divulgação, math.DG | Tagged Brendle e Schoen, fluxo de Ricci, teorema da esfera diferenciavel | Deixar um comentário »